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Nota de R$200 mostra barreiras dos pagamentos digitais e impõe desafios ao transporte público

Serviços essenciais, como transporte público, são vias que favorecem a digitalização financeira, mas concentração das estratégias ainda está nas classes que já não usam tanto o dinheiro em espécie

Você verá neste artigo 

  • Os motivos do lançamento na nova cédula de R$200
  • Possíveis impactos da nova cédula, em especial no transporte público
  • A desigualdade no acesso aos meios digitais no Brasil
  • Como a China promoveu a digitalização financeira da sua população
  • O que temos a aprender com o gigante Asiático 
  • Como o transporte público é uma peça chave na transformação digital do país
  • Oportunidades com o lançamento do PIX pelo Banco Central 

O dinheiro em espécie em posse dos brasileiros está aumentando durante a pandemia, o que levou o Banco Central a anunciar a nova nota de R$200, uma estratégia para diminuir custos com a circulação maior de cédulas. 

Segundo a instituição, está ocorrendo um entesouramento do dinheiro, e os principais motivos são a insegurança nos bancos em setores da sociedade – o medo da inflação e a lembrança do confisco da poupança incentiva a retirada dos bancos; a menor circulação do dinheiro no comércio e os saques do auxílio emergencial, que em sua maioria não voltaram ao sistema bancário. 

O movimento vai na contramão do que estava acontecendo até então: a diminuição de pagamentos feitos por dinheiro em espécie. Mas, ao mesmo tempo, o anúncio dá luz a um problema pouco abordado nas rodinhas de tecnologia e inovação mais esclarecidas: o acesso da população mais pobre aos pagamentos digitais, além dos problemas decorrentes do estímulo ao uso do dinheiro em espécie. 

Primeiros impactos na economia

Especialistas em economia e investimentos ouvidos pelo Estadão divergem em relação aos impactos diretos na economia brasileira do lançamento de uma nova cédula. Parte afirma que a nova nota pode desencorajar ainda mais os investimentos, estimulando a poupança em casa mesmo. 

“A insegurança momentânea também faz com que algumas pessoas não invistam. Então, olhando para um todo, existe uma relação de que as pessoas guardam mais ‘dinheiro vivo’ em momento de crise e a nota alta vai aumentar essa prática”, afirma Caio Mastrodomenico, CEO da Vallus Capital.

Outra parte dos especialistas afirmam que o impacto nos investimentos não será tão sentido, pois esse setor é bastante digitalizado hoje. 

Porém, concordam que problemas já recorrentes tendem a se tornar mais claros, como é o caso do troco. Alguns setores já sofrem em suas transações com dinheiro, especial aqueles pouco digitalizados, como o transporte público. 

Luiz Renato, CEO da ONBOARD, especialista neste setor no país, conta ao Agora é Simples que “Práticas como a tentativa de embarque utilizando notas de R$ 50,00 e R$ 100,00 são conhecidas e chegam a garantir viagens gratuitas pela falta de troco. Imagina esse cenário com a nota de R$ 200,00”. 

Nessas situações, a nova nota pode contribuir para a já combalida economia das empresas de transporte, impondo novos desafios, treinamentos e estratégias. 

No ponto de estratégias, todavia, é importante nos aprofundarmos no contexto nacional e no papel atual exercido pelo transporte público em relação aos meios de pagamentos.

A desigualdade digital no Brasil

O último aspecto que corroborou com a decisão de incluir uma nova nota na moeda brasileira é a grande parcela das pessoas beneficiárias do auxílio emergencial que, em sua maioria, preferiram retirar a quantia da sua conta, ao invés de realizar seus pagamentos de forma digital. 

É óbvio que isso não pode ser explicado apenas em termos de preferência. Grande parte da população ainda não possui acesso aos meios digitais, ou se possui, não são impactados por uma educação financeira digital – nem ao menos qualquer educação financeira. 

Pesquisa do Instituto Data ANF, da Agência de Notícias da Favela, revela que 45% das pessoas pagam suas compras com dinheiro físico – número maior do que a média nacional de 29% – mesmo sendo notório que o risco de contaminação pelas notas seja maior, conforme afirmação da Organização Mundial da Saúde. 

Todo brasileiro já ouviu dos mais velhos quando criança que o dinheiro contém muitos germes. Não é diferente com o novo vírus. 

Com a pandemia, a aposta dos setores de pagamentos era de um aumento exponencial do digital, o que de fato ocorreu. O PicPay, uma das maiores carteiras digitais do país, ampliou em seis vezes novos cadastros mensais durante a quarentena. 

A Caixa Econômica Federal, a seu modo, lançou o app Caixa Tem para pagamentos do auxílio emergencial. Essa experiência, porém, foi frustrante para a grande maioria das pessoas, que não conseguia acessar o app, tampouco fazer pagamentos por ele. O app se tornou chacota na internet pela tentativa de mal sucedida de transformação digital. 

Nem mesmo “dando” dinheiro o app foi bem avaliado, uma vez que gerou filas, intermináveis mensagens de erro e críticas vindas de todo o Brasil.
Horário de funcionamento não faz sentido no digital

Sem um serviço funcional, a oportunidade de incluir financeira e digitalmente pela primeira vez grande parte da população mais vulnerabilizada do país não obteve grande sucesso, ocasionando a retirada dos valores de forma presencial em agências bancárias, o que contribuiu para a maior circulação de notas de papel e o lançamento da nova cédula de R$200. 

Sendo assim, as estratégias para incluir pessoas das classes C, D e E no setor digital, num dos países com a menor inclusão financeira do mundo, precisam contemplar a experiência de uso de milhões de brasileiros que estão pela primeira vez acessando seu dinheiro pelo celular. 

Transformação digital inclusiva 

A China é um exemplo de inserção tecnológica e um dos países que mais fazem transações pelo celular. Há pouco tempo, porém, grande parte da população pagava por suas compras em dinheiro vivo. O que fez mudar esse cenário? 

Um incentivo forte ao celular, utilizando uma tecnologia de baixíssimo custo, a dos QR Codes. Para as pessoas usarem um QR Code só é preciso um celular com câmera, item básico em qualquer aparelho hoje. Por parte dos lojistas, apenas uma impressão do código, que fica disponível aos consumidores. 

Código QR é um código de barras bidimensional que pode ser facilmente escaneado.

Desse modo, ocorre uma diminuição de custos grande com os PO’s (as maquininhas de cartão), e uma abrangência aos cidadãos. 

Muito diferente, por exemplo, do pagamento por NFC disponibilizado por empresas como Samsung e Apple, que são caros ao consumidor final e só estão disponíveis em equipamentos premium. 

Sobre isso, o artigo Why QR code payment develop well in Chinade Pu Zhang, da Universidade de Birmingham na Inglaterra, afirma que esses métodos são focados num público que já paga suas compras por meio do cartão de crédito ou débito, e que do ponto de vista do consumidor: 

“Os hábitos dos usuários precisam ser alterados para usar tecnologias como pagamento por código QR ou Apple pay em locais onde os cartões de crédito estão disponíveis, mas o aprimoramento da experiência do usuário é pequeno. Por outro lado, em lugares onde as pessoas não podem usar cartão de crédito, o uso do Apple Pay é quase impossível [por que não se não aceita cartão, dificilmente aceitará algo ainda mais moderno como NFC].”

Ou seja, traduzindo para o contexto brasileiro, com todo o cuidado que uma mudança geográfica dessa merece, podemos entender que existe hoje enfoque de pagamentos digitais para pessoas que já tem seus hábitos de pagamento bastante aprimorados por meio dos cartões. 

Por outro lado, as parcelas da população que ainda se relacionam com cédulas sujas cheias de Covid-19 estão afastadas dos pagamentos digitais, justamente essas que teriam uma experiência bastante diferente da atual, realmente disruptiva. 

Serviços públicos na popularização do online

Na China, a mudança que representou a popularização dos pagamentos por QR Code e da quase eliminação do dinheiro foi uma mudança cultural profunda no país asiático. A maior parte das pessoas não utilizava cartão, então os QR Codes foram sua primeira grande experiência com novos métodos de pagamento digitais

Algo muito próximo do Brasil, onde os pagamentos em espécie ainda são comuns na nossa rotina diária. 

Sendo assim, o grande benefício dos pagamentos digitais: maior segurança, facilidade, menores taxas, etc. é fundamental na qualidade de vida de um público que não está presente nas estratégias de penetração de mercado da maioria dos bancos, carteiras digitais e demais instituições financeiras. 

Pessoas que possuem um celular simples e ainda pagam em espécie terão sua experiência com o dinheiro radicalmente transformada, muito mais do que quem há anos já se relaciona com cartões de débito e crédito. 

Na China, para continuar com o exemplo, o Alipay se popularizou por aprimorar serviços públicos, incluindo o pagamento de multas de trânsito, transporte público, registros online em hospitais, etc. 

Ou seja, não é só sobre comprar coisas, mas também sobre ser mais eficiente e rápido em ações do dia dia. 

No Brasil, alguns aplicativos de carteira digital se atentarem a isso. Durante a pandemia, os pagamentos do Governo do Estado de São Paulo do auxílio merenda das famílias com alunos em escolas públicas foi feito por app. 

Foi uma excelente iniciativa para digitalização financeira da sociedade, pois representa para milhões de pessoas sua primeira conta digital e, outras tantas, a primeira conta. 

Em termos de mercado, também foi um passo importante para conquistar usuários. Os principais apps que se posicionam como carteiras digitais estão em corrida para ter a maior base de usuários possível quando for lançado o PIX do Banco Central. 

O novo sistema de pagamentos instantâneos tende a tornar obsoletos TED, DOC e os cartões bancários. Transações financeiras digitais seguirão um padrão único, e os esquemas fechados dominantes do mercado hoje serão menos atrativos. 

O PIX transforma o mercado pois descentraliza a cadeia de pagamentos, derruba as taxas e induz a competitividade. Tudo isso com o consumidor no foco do desenvolvimento.

O novo esquema é atrativo não somente para bancos e instituições financeiras. Todo setor com alto fluxo de pessoas e circulação de dinheiro pode desenvolver soluções próprias e surfar em novos modelos de negócios. 

Nesse ponto, juntamos os desafios que o transporte público enfrentará com a nova cédula de R$200, como abordado acima, com as oportunidades do PIX. 

Transportes públicos e digitalização financeira 

Cerca de 29% da população brasileira é desbancarizada e 59% destes são mulheres, algo em torno de 45 milhões de pessoas, segundo o Instituto Locomotiva. 

À exemplo da China, serviços essenciais a essa população são uma estratégia de alcance. É o caso do transporte público, que tem entre seus clientes mais de 50% mulheres de classes C, D e E, justamente as menos bancarizadas. 

O setor de transportes no Brasil ainda possui muita circulação de dinheiro, tem seus próprios esquemas de bilhetagem e base de clientes, com uma diversidade de pessoas enorme. 

O grande problema é que os sistemas fechados de bilhetagem só permitem o uso do saldo dos cartões no próprio transporte público, o que limita as possibilidades. O transporte público atinge parcelas enormes da população, mas da forma que se estrutura hoje não pode servir de meio para pagamentos de auxílios emergenciais, por exemplo. 

O Mapa de Insights é baseado em pesquisa quantitativa exploratória realizada em 2 cidades no sul e sudeste com 188 clientes do transporte público. No estudo buscava-se compreender as percepções dos usuários sobre os métodos de pagamento disponíveis para o transporte público: dinheiro e cartão. O Mapa foi organizado de forma a evidenciar as vantagens e desvantagens de cada um, e é possível notar que essas características se fundem: o que é vantagem em um, é desvantagem em outro. No círculo laranja, estão pontos que um pagamento digital poderia atender, seja na criação de valor positivo nas vantagens ou diminuição de barreira nas desvantagens.

Em meio à crise que abala o setor, um serviço de tamanha importância como esse poderia gerar as receitas necessárias para continuação dos serviços. O modelo de Account Based Ticketing (ABT), ainda não adotado no país, serve justamente para que o saldo de créditos do transporte fique armazenado em nuvem e não na mídia física, o cartão. 

Com a adoção ampla desse esquema poderíamos incluir financeira e digitalmente grande parte da população por meio de um serviço já usado, conhecido e carente de inovação. Esse serviço poderia ocorrer por meio de uma carteira digital dos transportes, ou mesmo um cartão que não fosse dos modelos MIFARE Classic (inseguros para qualquer fim). Infelizmente, desta vez, o transporte público perdeu o timing

Esse setor, tão acostumado com os ossos, poderia finalmente desfrutar de fatias do filé que é o setor de pagamentos no Brasil, mas ainda está numa paralisação em relação às possibilidades de inovação, mesmo tendo relacionamento e sendo responsável pela locomoção de trabalhadoras, estudantes e cidadãos no geral. 

Diferentemente da China, muitos serviços públicos, incluindo o transporte, ainda continuam presenciais e burocráticos. Basta nos atentarmos à dificuldade que é fazer um cartão de transporte, por exemplo. 

Há um longo caminho pela frente

O transporte público no Brasil tem um grande desafio com a nova cédula de R$200 para que ela não seja um problema nas operações do dia dia. 

Por outro lado, possui uma grande oportunidade com o lançamento do PIX, pois o novo sistema de pagamentos põe um novo jogo à mesa. 

Diversos entrantes se preparam para oferecer suas carteiras digitais, mas como vimos acima, a facilitação dos meios digitais não se resume só ao pagamento, mas também à captura de recursos, ao atendimento, solução de problemas e solicitações e demais serviços burocráticos, principalmente aqueles feitos pela grande maioria brasileira: transportes, justiça eleitoral, saúde, trabalho, etc. 

O lançamento da cédula de R$200 vai na contramão da digitalização financeira e também expõe o abismo social e digital no Brasil, que ainda torna mais fácil o manuseio do dinheiro do que o uso de canais digitais. 

Ou seja, andamos um passo com o PIX e os pagamentos de auxílios em carteiras digitais, mas damos dois passos para trás com sistemas que não funcionam e o lançamento de novas cédulas. 

Ironicamente, desta vez, o transporte público perdeu este ônibus. Nosso papel como difusora de conteúdo e conhecimento sempre será o de informar o mercado com nossas análises mais precisas.

Tudo isso para que na próxima volta, esse segmento em que tanto acreditamos seja a liderança. O que nós não podemos fazer, é segurar a viagem. 

Isso é obrigatório.
Isso é obrigatório.

Carteiras digitais: as lições do varejo para o transporte público

O que a evolução do cartão de loja pode ensinar ao transporte público

Desde a promulgação da lei 12.865/2013 que o mercado das fintechs (empresas de finanças + tecnologia) esquentou. A lei define as instituições de pagamento, diferenciando-as das instituições financeiras como bancos, com regras próprias. 

A regulamentação deu segurança jurídica para empreendimentos na área e hoje o Brasil é um dos mais efervescentes mercados para tecnologias financeiras. Como prova temos o banco digital mais valioso do mundo, o Nubank. 

As instituições podem oferecer formas de pagamento, transferência, gestão financeira, investimentos e moedas próprias. A liberdade tem chamado a atenção de grandes empresas do mercado interessadas em maximizar ganhos, fidelizar e até mesmo bancarizar seus clientes. 

Essa transformação nos pagamentos ganhou mais força no ano passado, com a instauração pelo Banco Central do Grupo de Trabalho em pagamentos instantâneos. 

A partir de discussões com mais de 90 instituições interessadas, entre bancos e fintechs, os pagamentos instantâneos começam seu processo de padronização e ida ao mercado. 

Mas o que são pagamentos instantâneos e porque eles são importantes?

Como vimos, ao regular as instituições de pagamento em 2013 o Banco Central estimulou a competição no mercado e ajudou na criação de serviços digitais hoje extremamente bem avaliados pelo consumidor, descentralizando dos 5 grandes bancos do país. 

Entre os serviços digitais mais bem avaliados – por consumidores e pelo mercado – estão o já citado Nubank, e também Banco Neon, Creditas, GuiaBolso, entre outros. 

Em 2018 um passo além foi dado em direção aos pagamentos instantâneos com a instauração do grupo de trabalhos, realidade já vista na Europa e na Ásia. Na China, em particular, estão os maiores cases de carteiras digitais com o WeChat e o Alipay. 

Mais uma vez caminhamos para a desburocratização do mercado. Os pagamentos instantâneos permitem trocas de valores 24 horas por dia, 7 dias por semana e disponibilidade imediata de fundos para o beneficiário. Muito diferente dos limites de dias e horários para transações que temos hoje.

Essa flexibilidade abre um leque de opções de pagamento, hoje muito atreladas ao crédito ou débito por cartões bancários. Operações estas consideravelmente caras tendo em vista todos os atores envolvidos na cadeia de pagamento.

Em seu site, o Banco Central justifica a regulamentação dos pagamentos instantâneos na cobertura de lacunas, como: 

i.a utilização elevada do dinheiro em espécie para pagamentos de serviços e para transferências de recursos entre pessoas físicas, o que justifica a política do BC de incentivo à eletronização dos instrumentos de pagamento de varejo, tendo em conta que podem gerar redução significativa do gasto com a realização de pagamentos; 

ii.as transferências eletrônicas interbancárias de crédito, como a TED e o DOC, estão longe do seu potencial de utilização, principalmente por causa das tarifas elevadas para essas operações, das dificuldades no endereçamento das transferências e da ausência de confirmação das transações; e

iii.os custos de aceitação de cartões de crédito e de débito são muito elevados e a disponibilização dos recursos para o beneficiário final do pagamento demora muito tempo.

Os tópicos acima te lembram alguma coisa? A situação do transporte público é muito similar a essas descrições: utilização elevada de dinheiro em espécie, demora para disponibilização de créditos comprados pela internet e custos elevados para aceitação de cartões bancários. 

 

Resumindo, os pagamentos instantâneos são bons para toda a cadeia, ao diminuir custos nas transações, aumentar o leque de opções de pagamento e a possibilidade de criação de novas receitas para quem vende a um número grande de pessoas, como o varejo e, em especial, o transporte público

Varejo entra no mercado para explorar base de clientes

Entre os novos serviços de pagamento instantâneo o varejo brasileiro tem saído à frente. Lojas Americanas, Magazine Luiza e Casas Bahia anunciaram recentemente suas próprias carteiras de pagamento.

Essas empresas estão cientes da alta taxa de desbancarização de seus clientes há muitos anos e sempre buscaram retê-los e ser responsáveis pelos pagamentos de suas próprias compras. Foi assim que se popularizou o “cartão da loja”, mas mesmo que obtenham receitas de transações em seus cartões de marca própria, ainda existem intermediários que diminuem suas margens. 

Um pagamento simples com o cartão próprio contempla os custos da transação, com a empresa da maquininha e a divisão das receitas com o banco e a bandeira do cartão. 

Com a possibilidade de uma carteira digital própria, amparada pela regulação dos pagamentos instantâneos, há a diminuição desses atores que são remunerados. Pelo celular não tem maquininha, sem cartão não tem bandeira e os bancos tem sua importância diminuída.

Ensinamentos ao transporte público 

Todas as novas carteiras digitais querem uma fatia da transação das compras feitas por esses meios, criando um novo concorrente às adquirentes, como Cielo, Rede, Stone e PagSeguro, além das bandeiras de cartão, entre elas Visa e MasterCard

Em busca da popularização de seus serviços e da competitividade que irá se acirrar num futuro bem próximo, há um movimento de integração com o transporte público, mercado com clientes recorrentes e grande fluxo de pagamentos. 

Vendo essa demanda que a OnBoard Mobility desenvolve o Bilhete Digital, uma carteira digital para o transporte público ser sua própria fintech e protagonista dessa revolução nos pagamentos. 

“Queremos que o arranjo de pagamento seja aberto. O crédito que hoje é exclusivo para transporte poderia ser usado para outros produtos e serviços, como uma compra na farmácia. Ou seja, viraria uma carteira digital pré-paga”, Luiz Renato M. Mattos, CEO da startup, em entrevista ao Mobile Time.

Para o Agora é Simples, Mattos, também editor desta publicação, disse que as operações de crédito feitas pela carteira geram receitas acessórias para o transporte público, por meio de comissionamento a cada transição. 

De acordo com a startup, o serviço é composto da tecnologia Account Based Ticketing (ABT) acessível por smartphones com uso de QR Codes. Ou seja, os créditos não ficam mais numa mídia física, o cartão, e sim online e disponibilizados no equipamento quando necessário.

Com essa tecnologia os cartões não serão substituídos de imediato, sendo o bilhete digital um complemento às formas de acesso ao transporte público, propiciando eficiência e fácil acesso à integrações tarifárias.

Comparando com a estratégia das varejistas, Luiz Renato nos lembra que “Os cartões private label (famosos cartões da loja) não são novidade. E algo que talvez não saibamos é que os varejistas são os principais emissores de cartões do país. O motivo, além da vasta base de clientes essas empresas possuem o relacionamento corpo a corpo com o seu cliente. 

Para o executivo, está aí uma estratégia de negócios para o transporte público “porque não maximizar os ganhos assumindo operações que antes eram exclusivas de instituições financeiras?”. 

Mattos finaliza enfatizando a queda de arrecadação do transporte público, que ano após ano perde clientes e torna-se cada vez mais insustentável do ponto de vista operacional. Para ele “o transporte público precisa surfar essa onda e aproveitar todo o potencial de sua base de clientes e recorrência antes que alguém faça isso por ele como temos visto em São Paulo capital com Mercado Pago, Recarga Pay, PicPay, entre outros”. 

Por uma ‘fintechzação’ dos negócios

Começar um novo empreendimento no ramo das fintechs ficará cada vez mais concorrido para entrantes. Temos notado um movimento de empresas com base grande de clientes para o ramo, aproveitando a escalabilidade que esse alto número de clientes pode dar às iniciativas, como as carteiras digitais. 

Com milhões de pessoas sendo transportadas todos os dias, utilizando principalmente cartões, como o Bilhete Único de São Paulo, o transporte público tem em mãos a possibilidade de reter clientes e obter novas receitas, não deixando esse potencial a nenhum outro setor que não ele mesmo. 

Além do tradicional vale-transporte, agora empresas do setor podem ser responsáveis pela distribuição de vales alimentação e refeição, compras em lojas físicas e pagamento de modais alternativos, entre carros compartilhados, bicicletas e patinetes. E o melhor: tudo com seu bilhete digital gerando receitas acessórias.

Por fim, pode ser uma estratégia fundamental para colaborar na reversão do ciclo vicioso que afeta os investimentos no transporte público ao criar uma nova experiência do cliente e gerar uma fonte extra de recursos que não sejam a tarifa paga pelos passageiros.

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Por que a OnBoard Mobility? 

A startup paulistana, fundada em 2016, foi reconhecida como uma das melhores soluções para cidades inteligentes no Connected Smart Cities e no SmartCity Bussiness em 2017 com sua proposta de digitalização dos cartões de transporte. 

Diante da dificuldade de se integrar com as atuais fornecedoras da bilhetagem eletrônica a startup focou seus esforços na criação do próprio hardware com o objetivo de dar independência às empresas de transporte com os mesmos benefícios de integração e regras tarifárias das bilhetagens atuais. 

Há alguns meses a OnBoard Mobility desenvolve a bilhetagem digital, sistema ABT que renova a bilhetagem eletrônica tradicional. O sistema abre um novo canal de acesso ao transporte e, como falado durante o texto, novas possibilidades de negócios. 

Abaixo imagens do hardware, que diferentemente da maioria dos validadores, tem software livre, ou seja, aberto ao desenvolvimento por parte das empresas. 

Com isso busca-se a liberdade de contratos abusivos e exclusivos com uma ou outra fornecedora de equipamentos o que, de acordo com a startup, baseada em dados da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), atrasam a inovação no transporte urbano. 

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Isso é obrigatório.
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